"Milena no papel de libertadora, ela, que não obstante sabe por sua constante experiência própria que alguém só pode salvar aos outros pelo fato de existir, e de nenhum outro modo. E ela, que já me salvou mediante sua existência, tenta salvar-me adicionalmente empregando outros meios infinitamente mesquinhos em comparação. Quando se salva a um afogado, é, naturalmente, uma grande ação, mas quando em seguida lhe manda ao salvado uma subscrição para a escola de natação, como se pode qualificar? Por que quer o salvador facilitar tanto sua tarefa, por que não quer continuar salvando a outro por sua própria existência, sua própria existência sempre à mão, por que quer delegar sua obrigação ao mestre de natação ou ao dono do hotel em Davos? E, além do mais, peso cinqüenta e cinco quilos e quatrocentas gramas! E como podia voar, enquanto nos damos a mão? E se ambos voássemos, que importância teria? E em todo caso, a essência de tudo o que ficou dito é isto: que não há perigo de que me afaste de ti, jamais. Por outra parte, acabo de chegar das minas de chumbo de Merano."
Kafka, passando mal.